As poderosas metáforas do Fla x Flu

 

Nos últimos anos, no Brasil, tem sido comum a comparação da polarização política brasileira com a acirrada e centenária rivalidade entre Flamengo e Fluminense. O termo “FlaxFlu” virou uma espécie de clichê para explicar as argumentações agressivas e muitas vezes superficiais elaboradas entre conservadores e progressistas, “dilmistas” e “aecistas”, tucanos e petistas, coxinhas e petralhas e por aí vai.

A irracionalidade do futebol tem servido desde então para chamar a atenção para a falta de aprofundamento nos debates e para a ausência quase completa de diálogo – elemento fundamental da própria política. Classificamos, assim, os seres humanos com os quais nos relacionamos (e além deles) entre os que se declaram “a favor do impeachment” e “contra o golpe”. E nessa classificação, como sempre, hierarquizamos “times” opostos, rivais no “campo” político e mesmo na vida, construindo fértil terreno para metáfora futebolística.

O ambiente confuso e a guerra de informações políticas tem outro componente de fundo, que também favorece o uso da tese do “FlaxFlu”: o judiciário. No meio desse embate, inúmeras discussões sobre a legalidade, o direito, a Constituição, as “leis” e os delitos foram feitas, e sempre num clima tenso, bélico e quase ritualístico: em “clima de FlaxFlu”. E, em mais lance desse jogo de palavras, o “impedimento” de Dilma se concretizou em agosto, mudando um pouco o foco para as ações do novo governo brasileiro.

Parecia, então, que a metáfora estava dando sinais de cansaço e as eleições municipais de 2016 foi revelando, aos poucos, que a polarização política esconde infinitas nuances locais, regionais e ideológicas, que ficam mal entendidas se não formos capazes de transcender a dicotomia absoluta.

Mas eis que no último dia 13, um FlaxFlu de verdade aparece para lembrar da eficácia da metáfora. No final do segundo tempo, o jogador Henrique, do Fluminense, faz um gol de cabeça invalidado pelo bandeirinha mas assinalado pelo árbitro principal do jogo. Os dois não chegam a um acordo e o jogo fica vários minutos parado, com muito bate-boca entre jogadores, e juízes, com participação do fiscal da partida. A polêmica em torno do “impedimento” no segundo gol do Fluminense deslocou o debate sobre o jogo, os gols e as jogadas, para o juiz e para os tribunais. E teve até liminar! O Fluminense alega que a decisão final de invalidar o gol foi tomada após “interferência externa” (de alguém que viu pela TV que o jogador, de fato, estava impedido), o que não é permitido pela legislação futebolística.

O interessante nesse caso esportivo, mais do que as analogias possíveis, é identificar como as retóricas e o vocabulário colaboram para construir um sentido de verdade compartilhado. Torcedores do Fluminense apontam a ilegalidade de uma possível “interferência externa” na decisão do juiz. Não pode! Porque mesmo não pode? Não sabemos: é a lei! O fato do gol ter sido realmente feito em “posição irregular” não altera a argumentação sobre a necessidade de não haver interferência externa.

É uma retórica curiosa, que me lembra um pouco a do Gilmar Mendes, que emitiu liminar impedindo Lula de assumir a Casa Civil antes do golpe dizendo que ele iria assumir para “ter foro privilegiado”, caracterizando um “desvio de função”. A bizarrice do argumento de que ser julgado por um tribunal mais qualificado favoreça a alguém que nem era efetivamente acusado de nada (estava apenas “sob investigação”) não anulou a “validade” da decisão.

“Desvio de função”, “interferência externa”…

As leis são bastante criativas em algumas tipologias que parecem que são vagas para serem empregadas de forma obscura, quando convier a algum juiz. Mas elas mudam. Há nem tantos anos assim, adultério era crime e indo um pouco mais para trás, alguns seres humanos eram considerados escravos. Havia argumentos jurídicos tão bizarros quanto para justificar a validade legal da escravidão, mas que foram aos poucos sendo desconstruídos. Ainda bem que existe a possibilidade de mudanças nas leis. Tomara que mudem para melhor, no futebol e nos marcos jurídicos da política.

Até lá, haja impedimento!

Felipe Trotta

Felipe Trotta

Felipe Trotta é professor da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPq, com pesquisas sobre música e sociedade. É autor de vários artigos científicos de dois livros sobre samba (O samba e suas fronteiras, 2011) e forró (No Ceará não tem disso não, 2014).
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